Em processos de separação e divórcio, nem sempre o maior risco está no fim da relação conjugal, mas na forma como os conflitos emocionais marcam os filhos. Ao longo da minha atuação como psicóloga e psicanalista desde 2000, acompanho famílias que desejam proteger suas crianças, mas se veem presas em dinâmicas de ressentimento, manipulação e relações marcadas por violências ou rupturas abruptas de confiança.
Muitos pais e mães vivem divórcios traumáticos enquanto lidam com gatilhos emocionais intensos e medo de perder o vínculo com os filhos. Nesses contextos, o jovem pode ser colocada no centro do conflito, exposto a versões distorcidas da realidade que comprometem seu desenvolvimento psíquico. O que começa como um esforço para se proteger da dor pode evoluir para um processo de alienação parental com consequências profundas.
Neste artigo, abordo o trauma da alienação parental sob uma perspectiva clínica, compreendendo seus vínculos com o narcisismo, o estelionato afetivo e as dinâmicas emocionais dos traumas de filhos com pais ausentes. A proposta é oferecer reflexão e clareza para pais, mães e adultos que desejam interromper ciclos de sofrimento, proteger os filhos e buscar caminhos mais conscientes por meio da psicoterapia especializada.
Conflito conjugal e os Filhos
As pessoas oferecem nos relacionamentos aquilo que conseguem oferecer a partir da própria história emocional. Muitos vínculos se formam a partir de carências, baixa autoestima e pouco autoconhecimento. Quando faltam habilidades relacionais básicas como diálogo, escuta, empatia, regulação emocional e capacidade de lidar com frustrações, o conflito tende a se intensificar. Nesse contexto, divórcios acontecem como consequência de relações já fragilizadas emocionalmente.
Diante do sofrimento da termino amoroso, alguns adultos passam a envolver os filhos no conflito. A criança pode ser usada como apoio emocional, aliada contra o ex cônjuge ou meio de aliviar a própria dor, raiva ou sentimento de rejeição. Separar um pai ou uma mãe do filho, seja por afastamento direto ou por desqualificação emocional, traz consequências graves para o desenvolvimento emocional.
É importante destacar que também existem situações em que o afastamento é necessário para proteção, especialmente em casos de violência psicológica, física ou doméstica. Nessas circunstâncias, o acompanhamento psicológico e orientações especializadas tornam se imprescindíveis para proteger a criança e auxiliar os adultos a lidarem com a separação de forma mais consciente, evitando marcas para a vida toda.
Quando o divórcio não se encerra
O fim de uma relação não encerra automaticamente os conflitos emocionais. Muitas vezes, pais continuam presos a mágoas, ressentimentos ou decepções, e os filhos passam a viver essas tensões de forma indireta. Como observou Murray Bowen, fundador da Teoria Sistêmica Familiar, “o comportamento de cada membro da família afeta todos os outros, mesmo que de forma invisível”.
Por exemplo, muitos traumas ocorrem em famílias típicas de comercial de propagandas. Ocorreu gravidez planejada, boas viagens, não haviam discussões entre o casal. Ate que um dia surgem acontecimentos graves como traição ou ate a transformação do relacionamento em apenas amizade. Assim, de repente, os filhos assistem a gritos, discussões e silêncios pesados. O ambiente deixa de ser seguro, previsível e acolhedor.
Ao longo do crescimento, esses jovens internalizam sentimentos de culpa, medo, vergonha e decepção, acreditando, muitas vezes, que de alguma forma são responsáveis pela tensão entre os pais. Esse aprendizado impacta a vida adulta: relacionamentos amorosos, capacidade de confiar e habilidades de regulação emocional ficam comprometidos. Por isso, a psicoterapia especializada oferece um espaço seguro para essa reconstrução.
Alienação Parental e Manipulação Emocional
Muitos filhos crescem ouvindo que “o outro não gosta de você” ou que “não vale a pena vê-lo”. Perdem aniversários, Natais e momentos importantes, sem entender por que estão sendo afastados de quem deveriam amar. Precisam lidar com ausência e frustração, muitas vezes enfrentando processos de pensão ou direitos não respeitados. Nessa rotina, aprendem cedo a medir cada palavra e gesto para tentar agradar, numa tentativa de proteger o pouco afeto que ainda recebem.
Com o tempo, esses jovens internalizam padrões de insegurança. Passam a agradar para evitar conflitos, escondem sentimentos e deixam de ser autênticos, carregando culpa, medo e negatividade. Muitos adultos continuam presos a esses padrões: têm dificuldade em confiar, se posicionar e estabelecer limites, enquanto reproduzem relacionamentos tensos ou disfuncionais. Como alerta Bob Hoffman, crianças expostas à manipulação emocional aprendem a sacrificar espontaneidade para sobreviver.
O efeito vai além do indivíduo. A manipulação e o conflito criam ciclos familiares que atravessam gerações. A psicoterapia oferece um espaço seguro para entender essas dinâmicas, reconstruir autoestima e vínculos saudáveis, e aprender a lidar com emoções complexas sem repetir padrões que limitam a vida pessoal e os relacionamentos.
Narcisismo e Estelionato Afetivo: Consequências aos filhos
Filhos que crescem em meio a alienação parental não têm responsabilidade pelo que os pais fazem, mas carregam o impacto dessas situações como se fosse deles. Eles aprendem cedo a lidar com a infelicidade dos adultos, tentando controlar reações ou proteger relações, muitas vezes à custa de si mesmos. Esse esforço cria padrões de autossabotagem que podem se estender à vida adulta.
Cortar o cordão emocional é um desafio. Muitos jovens e adultos continuam presos à esperança de que o outro se reconheça, mude ou ofereça o afeto que nunca tiveram. Vivenciar frustração sem internalizar culpa exige desenvolvimento de auto compaixão, limites claros e compreensão de que não se pode controlar o comportamento alheio. Negar a própria experiência ou se culpar apenas fortalece sentimentos de inferioridade e dificuldade em confiar.
A longo prazo, a incapacidade de lidar com esses traumas influencia relações pessoais, profissionais e amorosas. Quem passou por essas situações precisa aprender a perdoar, não para justificar os erros alheios, mas para libertar-se da dor e recuperar autonomia emocional. É nesse equilíbrio entre reconhecer a própria vulnerabilidade e estabelecer limite que se constrói capacidade de viver de forma mais leve, sem carregar responsabilidades que nunca foram suas.
Reconstruir-se após Traumas Familiares
Pesquisas mostram que a maioria dos casamentos termina porque um ou ambos os parceiros acreditam estar fazendo tudo certo, mas falham na escuta e no diálogo. Traumas familiares não resolvidos podem gerar frieza afetiva, bloqueios emocionais, apatia sexual, agressividade, distância emocional e falta de empatia. Sem perceber, muitos adultos reproduzem os padrões que vivenciaram na infância.
O desafio é reconhecer essas tendências. Quantos relacionamentos você já iniciou carregando os traumas dos seus pais? Quantas vezes a frustração, o medo ou a raiva antiga moldou sua reação em vez de sua escolha consciente? Identificar essas influências é essencial para não repetir ciclos de sofrimento e permitir relacionamentos mais saudáveis.
O diferencial do tratamento psicoterapêutico não está apenas em conversar sobre o passado, mas em gerar consciência real sobre esses padrões. Ele oferece ferramentas para virar a chave: novos aprendizados, percepção de si mesmo e do outro, e estratégias para quebrar ciclos de amor negativo. É um processo de transformação que permite agir com autenticidade e liberdade, construindo vínculos mais profundos e satisfatórios.

Como Traumas Familiares influenciam relacionamentos e carreira
Muitos adultos reproduzem dinâmicas da família de origem sem perceber. Em famílias de culturas mais rígidas, como culturas portuguesas ou alemãs, o afeto pode ter sido desvalorizado, e a comunicação com os filhos limitada. Crescer nesse ambiente gera adultos que internalizam frieza emocional, dificuldade de se expressar e medo de se aproximar, levando a falta de comprometimento afetivo.
Quando expostos a alienação parental, esses padrões se intensificam. Filhos que presenciam ou vivenciam afastamento de um dos pais aprendem a medir emoções, esconder necessidades e agradar para evitar conflitos. Na vida adulta, isso se traduz em dificuldades afetivas, frustração profissional e sensação de vazio que nada parece preencher, mesmo com conquistas externas.
O efeito é silencioso, mas profundo: a forma como se aprendeu a amar e se relacionar impacta decisões, escolhas de parceiros e estilo de liderança. Reconhecer essas raízes permite superar bloqueios e abrir espaço para relações mais leves, sem repetir ciclos de afastamento, manipulação ou desvalorização afetiva.
Histórias de Novas Escolhas em Alienação Parental
Rafael (nome fictício) cresceu com sua mãe, que dizia desde cedo que seu pai o havia “abandonado”. Durante anos, ele internalizou essa narrativa, inseguro em relacionamentos amorosos e baixa auto estima. O sentimento de culpa e abandono moldou sua percepção de si mesmo e do mundo ao redor.
Quando adulto, já em processo de autoconhecimento e terapia, Rafael recebeu uma iniciativa do pai, que buscava retomar contato. Inicialmente hesitante, decidiu ouvir a versão do outro lado. Descobriu que seu pai foi afastado e ameaçado pelo próprio avô logo após seu nascimento, e que a ausência nunca foi por desinteresse ou negligência.
Esse reencontro mudou sua vida: a convivência com o pai trouxe de volta uma referência masculina, ajudando Rafael a compreender padrões familiares, ressignificar experiências de abandono e estabelecer relações mais amorosas. Esse exemplo mostra como novas escolhas, baseadas em consciência e compreensão, permitem quebrar ciclos antigos que alimentam crenças negativas.
Conclusão: Ressignificar Vínculos com Maturidade
A alienação parental gera traumas emocionais profundos, ligados ao relacionamento paterno e materno que moldam crenças, comportamentos e padrões de relacionamento. Esses impactos afetam autoestima, vínculos afetivos e escolhas de vida, muitas vezes criando ciclos repetidos de frustração e distância emocional.
O acompanhamento especializado com a dra Lisiane Hadlich, psicóloga e psicanalista, desde 2000, ajuda a compreender essas dinâmicas, ressignificar experiências e fortalecer valores familiares, oferecendo também suporte a casais em processo de separação para que decisões difíceis não causem danos psicológicos nos filhos.
Se você ou sua família estão lidando com alienação parental ou traumas relacionados, a psicoterapia personalizada por vídeo chamada, online e internacional, oferece orientação prática, consciência emocional e estratégias para reconstruir vínculos com segurança e clareza. Agende aqui sua consulta.









