Por Lisiane Hadlich, psicóloga e terapeuta de casais, 26 anos de experiência.
Escrevo este artigo com o cuidado de quem acompanha, há mais de duas décadas, em terapia online homens, mulheres e casais no Brasil e exterior em momentos de transição e crises conjugais. Momentos em que o relacionamento apresenta falhas, ausência e que, quando recebido com humildade e coragem, pode se transformar em algo extraordinário.
Se você chegou até aqui, talvez esteja sentindo que algo no seu relacionamento ou em você mesmo precisa mudar. Talvez sua esposa tenha dito palavras que ainda ecoam. Talvez você olhe para a sua família e sinta que está presente fisicamente, mas ausente de um jeito que não sabe ao certo como nomear.
Este texto é para você.
A ilusão de que dar tudo é o suficiente
Trabalhar, prover, proteger e não demonstrar fraqueza. Para muitos homens, esses quatro verbos resumem o que significa ser um bom companheiro. Eles seguem esse caminho com seriedade. Chegam em casa depois de dias longos, garantem o que a família precisa e resolvem os problemas que aparecem. E acreditam, com razão dentro do que aprenderam, que estão cumprindo bem o papel deles.
Mas, em algum momento, a esposa diz algo que muda tudo: “Não aguento mais. Me sinto completamente sozinha mesmo estando com você.” A sensação é de queda livre.
A pergunta que surge é direta e dolorosa: “Eu dou tudo o que tenho. O que ainda não é suficiente?” Esse instante é, ao mesmo tempo, um dos mais duros e um dos mais reveladores que um homem pode atravessar. Porque ele empurra a busca para dentro: não “o que ela espera de mim?”, mas “o que eu ainda não enxergo em mim mesmo?”. Muitos casais descobrem, na terapia de casal, que essa pergunta era o começo que precisavam.
Você se reconheceu nessa situação: “Eu dava tudo, então por que minha esposa falou em separação?” Siga lendo que continuo a análise.
O que a ausência emocional faz com o casamento?
O problema é que esse roteiro não contempla a dimensão emocional do relacionamento. Ele não ensina um homem a ouvir sem resolver, a estar em casa sem estar no celular, a olhar para a esposa e realmente vê-la com seus medos, sua sobrecarga, seu cansaço invisível. Tampouco a perceber, nos filhos, a criança que precisa de presença paterna e atenção genuína.
Quando a esposa diz que se sente sozinha mesmo com o marido em casa, ela está descrevendo exatamente isso: a ausência de presença emocional. E presença emocional não se substitui com horas extras nem com viagem nas férias.
Estudo de caso: superando a crise conjugal
Este caso preserva o sigilo clínico, com detalhes modificados para preservar a identidade, uma história que representa este padrão de ausência emocional recorrente no relacionamento.
Matheus (nome fictício) chegou à terapia depois que a esposa disse que estava pensando em separação. Ele tinha 42 anos, um negócio próprio que exigia cada vez mais tempo, dois filhos pequenos e uma vida que, de fora, parecia estar funcionando bem.
Na primeira sessão, ele disse: “Não sei o que aconteceu. Achei que estava fazendo tudo certo.”
Ao longo do processo terapêutico, Matheus foi descobrindo coisas que ninguém nunca o havia ajudado a ver:
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Ele havia aprendido desde criança que emoções eram fraqueza. Então as suprimia e esperava, inconscientemente, que todos ao redor fizessem o mesmo.
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O excesso de trabalho não era apenas ambição: era também uma forma de evitar conversas difíceis, intimidade real, a vulnerabilidade de estar presente.
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Com os filhos, estava fisicamente por perto nos finais de semana, mas mentalmente ainda no trabalho. As crianças sentiam isso e a esposa também.
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Ele nunca aprendera a ouvir de verdade. Enquanto ela falava, ele já estava pensando na solução. O que ela precisava era de conexão, não de resposta.
Esse processo não foi rápido nem fácil. Mas Matheus e a família não se separaram. Não porque ele passou a ser perfeito, mas porque ele decidiu olhar para si mesmo com honestidade, com humildade, com coragem.
Hoje, meses depois, ele descreve o relacionamento como “algo que nunca tivemos de verdade antes, mesmo depois de tantos anos juntos.”
Por que repetimos os mesmos erros no relacionamento?

Essa é uma das perguntas mais frequentes que recebo. E a resposta, vista pela lente da psicologia analítica de Jung, é bastante clara: repetimos padrões porque eles estão enraizados em camadas da psique que a consciência cotidiana não alcança.
Crescemos num ambiente, uma família, uma cultura, um conjunto de experiências que nos ensinou como amar, como reagir ao conflito, como lidar com a dor e com o prazer. Esses aprendizados se tornam automáticos. E quando nos tornamos adultos e formamos nossos próprios relacionamentos, esses padrões aparecem… muitas vezes sem que percebamos.
O homem que foi criado por um pai emocionalmente ausente pode, sem querer, reproduzir essa ausência com os próprios filhos. Aquele que aprendeu que mostrar necessidade é sinal de fraqueza pode se fechar exatamente quando o parceiro mais precisa de proximidade. O parceiro que cresceu num ambiente onde a expressão emocional era punida pode hoje ter dificuldade de nomear o que sente e o que, para a esposa, parece indiferença.
Não é má vontade. É padrão. E padrões podem ser transformados.
O que a psicologia masculina tem a nos dizer
Muitos homens estão buscando se entender melhor. Não como tendência passageira, mas como resposta genuína a uma lacuna: durante gerações, os homens foram ensinados a fazer, mas raramente a sentir e refletir.
A psicologia junguiana propõe que cada pessoa, independentemente do gênero, carrega aspectos que, quando não integrados, se tornam fonte de sofrimento e conflito. Para muitos homens, isso inclui:
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A dificuldade de se conectar emocionalmente sem sentir ameaça à identidade.
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O medo de intimidade real, que pode surgir como distância, ironia ou excesso de trabalho.
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A confusão entre presença física e presença emocional.
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A relação com a própria vulnerabilidade e com o que isso significa ser homem.
Autoconhecimento não é privilégio de quem tem muitos problemas. É o caminho de quem quer construir algo sólido dentro de si e nas relações que ama.
Autorresponsabilidade: o ponto de virada
Existe uma diferença fundamental entre culpa e responsabilidade.
Culpa paralisa. Ela diz: “sou errado, sou falho, não presto.” Ela não leva a lugar nenhum.
Responsabilidade liberta. Ela diz: “eu contribuí para esse problema e eu posso contribuir para a solução.” Ela abre portas.
Quando um homem chega à terapia disposto a olhar para o seu papel no relacionamento, não para se punir, mas para genuinamente entender e mudar algo importante acontece. Ele deixa de ser refém dos próprios padrões automáticos. Ele começa a escolher como responder, em vez de apenas reagir.
Isso tem um nome na psicologia: desenvolvimento emocional. E ele é possível em qualquer fase da vida.
“Até que o inconsciente se torne consciente, ele continuará a dirigir sua vida e você o chamará de destino.” — Carl Gustav Jung
O que muda quando um homem faz terapia
Muitos homens chegam à terapia levados pela crise. Pela esposa que falou em separação, pelo filho que se afastou, pelo corpo que adoeceu depois de anos de burnout ignorado. E isso é válido, a dor é uma convocação legítima.
Mas ao longo do processo, algo curioso acontece: eles percebem que a terapia não é sobre resolver a crise. É sobre se entender. E que se entender transforma tudo: o relacionamento, a paternidade, o trabalho, a saúde, a forma de estar no mundo.
Algumas das mudanças que acompanho com mais frequência:
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Começam a ouvir a parceira de um lugar diferente, com atenção, não com defesa.
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Conseguem dizer o que sentem sem explosão nem silêncio.
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Tornam-se mais presentes com os filhos, não mais tempo, mas presença real.
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Aprendem a reconhecer os sinais de esgotamento antes de chegar ao limite.
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Descobrem que intimidade não é ameaça, é o que faltava.
Terapia de casal: quando os dois decidem construir junto
A terapia individual é fundamental para que cada pessoa entenda seus próprios padrões. Mas em muitos casos, há uma camada que só pode ser trabalhada quando o casal está junto, no mesmo espaço, com um profissional que ajuda a criar um novo tipo de diálogo.
Na terapia de casal, o objetivo não é encontrar quem tem razão. É entender como dois sistemas emocionais distintos com histórias, traumas e padrões diferentes estão interagindo, e o que cada um pode fazer para que essa interação seja mais saudável, mais amorosa e mais real.
É um espaço onde coisas que nunca foram ditas finalmente têm lugar. Onde mágoas antigas podem ser nomeadas e transformadas. E onde casais que achavam que o amor havia acabado descobrem, muitas vezes, que o que havia acabado era um modo de se relacionar — não o amor em si.
Para quem vive fora do Brasil, esse processo é igualmente possível. A terapia online para brasileiros no exterior oferece o mesmo acolhimento e profundidade, com a vantagem do acesso de qualquer lugar do mundo.
Você não precisa esperar a crise chegar ao limite
Uma das coisas que mais ouço de homens que iniciam a terapia é: “Por que não fiz isso antes?”
Não por arrependimento, mas por reconhecimento: a terapia não é para quem está quebrado. É para quem quer se entender melhor, construir relações mais saudáveis e viver com mais presença e significado.
Se você sente que algo precisa mudar no seu relacionamento ou em você, essa percepção já é um ponto de partida valioso. Ela merece atenção. A terapia oferece exatamente esse suporte: um processo estruturado, conduzido por uma especialista, para quem decide olhar de frente para o que precisa mudar.
Para quem vive fora do Brasil, o atendimento online tem se mostrado tão eficaz quanto ao presencial, com a vantagem adicional de privacidade e acessibilidade.
Conheça o atendimento online com a dra Lisiane e dê o primeiro passo.
Cuidar de si mesmo não é fraqueza. É o começo de tudo.







